Alegria no trabalho.
Quando chego à minha secretária antes da hora, coisa que já não acontece frequentemente, a primeira coisa que faço depois de pendurar o casaco e pousar a mala, é ir tirar um café a uma máquina esquisita que há na sala de reuniões.
Por vezes, enquanto a dita escorropicha o café para dentro do copo, ponho-me a pensar há quanto tempo estará a água no depósito da máquina, se já terá lodo, fungos ou girinos. Como isto normalmente me faz perder a vontade de beber o café, já optei por pensar no assunto apenas uma vez por semana; e ando a tentar bater o record dos 15 dias.
Depois disto, passo à fase seguinte. Sento-me aqui, com o copo a ferver, e faço a minha revista de imprensa sossegada, em silêncio, queimando a língua pelo menos três vezes na bebida. Apesar disso, é o meu momento de serenidade, de quietude, de contacto com «o país e o mundo».
É normalmente quando me encontro neste nirvana de actualidades que chega a C.. Sorri, diz «bom dia», sobe a escada e põe-se a trabalhar. A seguir chega a F.. Sorri, diz «bom dia», diz que havia problemas no metro, que teve de vir a pé desde Entrecampos, que está vento, que está cansada, sobe a escada e continua a falar. Convém introduzir aqui um elemento espacial que ajudará o leitor a ter uma ideia mais exacta do drama que isto é: mezzanine. Algo parecido, em arquitectura apenas, com isto.
Ora bem, elas trabalham em cima – a C. trabalha, aliás – e eu em baixo. Até à hora em que nos levantamos para ir almoçar, não há qualquer contacto visual; apenas, e infelizmente porque já é muito, auditivo. Portanto, quando a F. entra neste espaço, o «país e o mundo» tornam-se completamente secundários (assim como toda a responsabilidade que temos – eu e a C. - em mãos, e pela qual somos pagas no final do mês). Não porque queiramos, mas porque somos obrigadas a inteirar-nos dos assuntos do marido, da sogra, dos pais, da irmã e do namorado, do IVA, dos frescos do Feira Nova, das reuniões na Junta, da fuga de gás e do dentista. Chego a meio da manhã a sentir-me como normalmente me sinto ao fim do dia.
Quando a hora do almoço se aproxima, por vezes acontece um fenómeno engraçado: o da dispersão. Umas vezes sou eu. No momento em que se agarram nas carteiras e nos telemóveis, indicando que está na hora da saída, eu, que não consigo ouvir nem mais uma palavra naquele timbre, desmarco-me para almoçar fora daqui com uma desculpa qualquer. Muitas vezes acabo por comer sozinha e, confesso, não me aborrece rigorosamente nada.
Outras vezes acho que a C. faz o mesmo. «Vou almoçar com a minha mãe, desculpem não ter avisado antes…», diz ela. Será que vai? Fico sempre com esta dúvida.
Vezes há ainda em que ambas usamos o mesmo truque sabujo, sem qualquer acordo prévio. Ela vai almoçar com a mãe e eu… sei lá, pode ser com o pai. Para o efeito serve perfeitamente.
É muito triste termos de ser assim para as pessoas. A F. é esperta, pessoa bem formada, simpática e generosa. Mas tem este valente «senão». Chateia. Tira do sério. Não trabalha nem deixa trabalhar. E se é verdade que muitas vezes não me apetece trabalhar, mais são aquelas em que não me apetece ouvi-la.
Hoje, por exemplo, «vou almoçar com a minha mãe». E estou de saída.
Por vezes, enquanto a dita escorropicha o café para dentro do copo, ponho-me a pensar há quanto tempo estará a água no depósito da máquina, se já terá lodo, fungos ou girinos. Como isto normalmente me faz perder a vontade de beber o café, já optei por pensar no assunto apenas uma vez por semana; e ando a tentar bater o record dos 15 dias.
Depois disto, passo à fase seguinte. Sento-me aqui, com o copo a ferver, e faço a minha revista de imprensa sossegada, em silêncio, queimando a língua pelo menos três vezes na bebida. Apesar disso, é o meu momento de serenidade, de quietude, de contacto com «o país e o mundo».
É normalmente quando me encontro neste nirvana de actualidades que chega a C.. Sorri, diz «bom dia», sobe a escada e põe-se a trabalhar. A seguir chega a F.. Sorri, diz «bom dia», diz que havia problemas no metro, que teve de vir a pé desde Entrecampos, que está vento, que está cansada, sobe a escada e continua a falar. Convém introduzir aqui um elemento espacial que ajudará o leitor a ter uma ideia mais exacta do drama que isto é: mezzanine. Algo parecido, em arquitectura apenas, com isto.
Ora bem, elas trabalham em cima – a C. trabalha, aliás – e eu em baixo. Até à hora em que nos levantamos para ir almoçar, não há qualquer contacto visual; apenas, e infelizmente porque já é muito, auditivo. Portanto, quando a F. entra neste espaço, o «país e o mundo» tornam-se completamente secundários (assim como toda a responsabilidade que temos – eu e a C. - em mãos, e pela qual somos pagas no final do mês). Não porque queiramos, mas porque somos obrigadas a inteirar-nos dos assuntos do marido, da sogra, dos pais, da irmã e do namorado, do IVA, dos frescos do Feira Nova, das reuniões na Junta, da fuga de gás e do dentista. Chego a meio da manhã a sentir-me como normalmente me sinto ao fim do dia.
Quando a hora do almoço se aproxima, por vezes acontece um fenómeno engraçado: o da dispersão. Umas vezes sou eu. No momento em que se agarram nas carteiras e nos telemóveis, indicando que está na hora da saída, eu, que não consigo ouvir nem mais uma palavra naquele timbre, desmarco-me para almoçar fora daqui com uma desculpa qualquer. Muitas vezes acabo por comer sozinha e, confesso, não me aborrece rigorosamente nada.
Outras vezes acho que a C. faz o mesmo. «Vou almoçar com a minha mãe, desculpem não ter avisado antes…», diz ela. Será que vai? Fico sempre com esta dúvida.
Vezes há ainda em que ambas usamos o mesmo truque sabujo, sem qualquer acordo prévio. Ela vai almoçar com a mãe e eu… sei lá, pode ser com o pai. Para o efeito serve perfeitamente.
É muito triste termos de ser assim para as pessoas. A F. é esperta, pessoa bem formada, simpática e generosa. Mas tem este valente «senão». Chateia. Tira do sério. Não trabalha nem deixa trabalhar. E se é verdade que muitas vezes não me apetece trabalhar, mais são aquelas em que não me apetece ouvi-la.
Hoje, por exemplo, «vou almoçar com a minha mãe». E estou de saída.

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